Floreano era um desses andarilhos que, por alturas do Verão, percorrem as Beiras de bailarico em bailarico, prestando-se a todos os serviços em troca de uns tostões ou de uns copitos. Contavam-me isso, enquanto me apontavam um pobre diabo de meia idade com um bigode farto e uns grandes olhos regados a tinto, que ao passar cavava um sulco de murmúrios e olhares entre as, já, muitas pessoas que se juntavam no largo da festa.
Porém, Floreano era um andarilho singular que tinha a capacidade de abrilhantar as festas com um pente.
Esta história do pente começou a embaraçar os cabelos da minha curiosidade. Então para espantar algumas dúvidas decidi, conhecer pessoalmente o Floreano.
Pensava-o de ideias confusas e de gagas palavras, no entanto, revelou-se um excelente orador. Inspirado pelo vinho explicou-me minuciosamente a ciência do pente; que se encosta à boca - esta funciona como caixa de ressonância - pressionam-se os dentes do pente e com a abertura e fecho da boca conseguem-se os tons que se pretendem. O processo é idêntico ao do berimbau de boca.
Figurou a explicação com um pente preto arrancado ao bolso traseiro das calças.
Respondendo a algumas questões que exigiam respostas mais perspicazes, disse que não era costume engolir cabelos e que não penteava os cabelos com uma escova de dentes... Por ultimo, revelou-me que aquele pente fora uma oferta do Quim Barreiros que o baptizou de "artista da Beira Alta" e que lhe ensinou a máxima "Nunca deixes o público ficar mal". Tanto a máxima como o pente iam com ele para onde quer que ele fosse.
Satisfeito com os esclarecimentos fiquei ansioso de o ver actuar.
A noite ia por más horas quando o microfone anunciou com pronúncia (pronunciou);
-Agora, senhores e senhoras, o artista da Beira Alta... Floreano!!!
Floreano entrou no palco desequilibrado, embrulhou-se com o microfone e estatelou-se no palco improvisado com tábuas, tudo isto acompanhado pelos gritos de dor microfonianos. Apercebeu-se das muitas gargalhadas à sua volta, mas as luzes dos projectores não o deixaram ver nada. Recompôs-se e começou a falar sem ninguém compreender uma palavra, visto que o microfone ainda berrava no chão.
-Floreano! Floreano!- insistiu um grupo mais animado - Toca! Toca! Toca!Aquele não era o mesmo Floreano que me tinha dado as lições de pentofonia. Estava alterado. As mãos tremiam-lhe e o seu rosto estava mais pálido. Alguém lhe levantou o microfone e o pôs ao nível da sua boca.
-Já posso!?...Meus senhores e minhas senhoras e Juventude em geral... É com muita tristeza minha, que anuncio o cancelamento do grandioso espectáculo de musica artesanal preparado para esta noite. Este imprevisto fica a dever-se a um assalto... Sim senhor, fui roubado... alguém roubou-me o pente... e sem pente não há musica... Peço-vos que não desmotivem... já estou a mover dirigências para resolver este problema... prometo-vos a minha comparência, logo que reatar o meu pente.
Ladrão! Ladrão! Ladrão! - gritava o tal grupo uma vez mais - O árbitro é ladrão!!!
Meio desorientado, Floreano veio ter comigo:
-E agora? Toda esta gente... - abria os braços, dando asas à sua frustração - ... à espera...e não os posso deixar mal...
Face ao seu desespero, propus-lhe que desse um salto comigo à casa do meu Avô para escolher um pente que preenchesse os requisitos para o concerto.
Floreano ficou maravilhado ao ver a vasta colecção de pentes que proliferam em casa do meu Avô por alturas da festa, pentes de todas as cores e feitios com pequenos cabelos negros dos meus tios e primos, e cabelos claros e ondulados das minhas tias e primas. Floreano deitou a mão sem hesitar ao pente-desfrisador eléctrico da minha prima Vanessa que já dormia por essas horas.
Ainda fiquei indeciso mas era tal o brilho de felicidade nos olhos daquele pobre homem, que me senti levado a dizer:
-Está bem, empresto-te este, mas por favor tem cuidado com ele que não é meu.
Pouco depois voltava para cima do palco e anunciava pujante de alegria:
-Meus senhores e minhas senhoras e Juventude em geral... Estou de volta como vos prometi... Com a ajuda de um amigo vai ser possível apresentar o tão aguardado espectáculo de música artesanal. Mas pela primeira vez e de acordo com os gostos da juventude, Floreano vai estrear um pente eléctrico...
O grupo muito animado incentivava:
-Dá-lhe, Floreano !!!Dá-lhe!!!
... E Floreano deu-lhe. Deu-lhe de tal maneira que as luzes do largo aumentavam e diminuíam de intensidade e algumas, pura e simplesmente, rebentavam. No palco Floreano deixou todos maravilhados com a sua agilidade ao dançar uma estranha coreografia. E, só quando se dissipou o fumo que se levantou á sua volta, é que eu vi que tinha de arranjar uma boa desculpa para quando a minha prima Vanessa acordasse.
Pedro Martins 99
© Zelincú &Escarabatafuncho Productions 99